quinta-feira, 19 de maio de 2011

A NOÇÃO DO QUE É ERRADO


Tenho uma sobrinha que acabara de completar três anos de idade. É de fato encantador presenciar aquele pedacinho de gente crescendo, aprendendo a falar e aos poucos ir conquistando espaço no mundo a seu redor. Sobre a família e a escola de ensino infantil pesa a responsabilidade de começar a incutir em sua cabecinha o discernimento entre o certo e o errado. E por vezes, nós, os adultos, somos surpreendidos pela criança quando ela resolve demonstrar ser uma aplicada aprendiz diante daqueles nossos atos que parecem contradizer aquilo que pregamos: - “Titio, não faça isso! Isso é feio! ”

E foi justamente essa frase de repreensão da autoria de minha sobrinha que me veio à mente quando me deparei com os absurdos e inaceitáveis depoimentos postados no Twitter pela internauta que se identificara por Amanda Régis, após a realização de uma bem disputada partida de futebol. Frustrada pela eliminação do time de sua simpatia – o Flamengo/RJ – pela equipe do Ceará/CE em partida válida pela Copa do Brasil, a internauta desferiu sua raiva em frases de cunho ofensivo e preconceituoso em relação ao povo nordestino, suscitando polêmica e revolta.

O mais lamentável é que não foi a primeira vez que isso ocorreu! Após os resultados das eleições presidenciais de 2010, a paulista Mayara Petruso inseriu em um sítio de relacionamento, na Internet, a seguinte frase: “Faça um favor a SP (São Paulo), mate um nordestino afogado”. Nesse caso, há ainda a incitação pública ao crime de homicídio, advinda de, pasmem, uma estudante de Direito!

Tais insultos, por si só, já soam como atitudes grotescas, inaceitáveis e repulsivas, considerando-se o atual momento por que passa a história da humanidade, em que a sociedade globalizada se mostra muito mais atenta e sensível às violações dos direitos humanos, incluindo-se aí os atentados à integridade, honra e imagem de raças e grupos sociais. Para a sociedade brasileira, em especial, as ofensas soam ainda mais estúpidas, pois, como muito bem nos ensina Darcy Ribeiro acerca da formação do povo brasileiro, somos o resultado de uma miscigenação de vários grupos étnicos. De uma forma geral, não há, no Brasil, o sectarismo de raças ou povos, a cultura da miscigenação se manteve perene até os dias atuais, de forma que não causaria espanto se constatada nas genealogias das próprias autoras das agressões a presença do sangue nordestino.

O fato é que a veiculação dessas repulsivas manifestações de pensamento é inaceitável, perigosa e merece a veemente reprovação da sociedade brasileira, pois aponta para o sectarismo, a intolerância e a desarmonia social, abalando, inclusive, o sentimento de unidade nacional.

Não sei se a família e a escola dessas garotas se esqueceram, omitiram-se ou não foram eficazes em incutir em suas cabeças aquilo que minha sobrinha já está aprendendo; não sei se essas garotas estudaram a formação do povo brasileiro, se tiveram ao menos as mais elementares noções sobre os princípios que regem o nosso ordenamento jurídico; mas sei que é preciso que a sociedade brasileira lhes diga um sonoro e uníssono: não faça isso, isso é feio! E que a Justiça se encarregue de lhes explicar que vivemos em um Estado de Direito, ou seja, submetemo-nos ao império da lei, de forma que nossas relações devem ser pautadas pelas normas estabelecidas em prol da harmonia da vida em coletividade; e que, à luz do Direito Brasileiro, os atos promovidos por elas têm sede em algo que se chama racismo, crime de alto grau de reprovação popular.

Michel Sued
Auditor Fiscal Cabo de Santo Agostinho-PE




Um comentário:

Anônimo disse...

JULGANDO A MATÉRIA PELO PRINCÍPIO DO DIREITO:

A dialética da justiça é marcada por essa intencionalidade constante no sentido da composição harmônica dos valores, sendo esta concebida sempre como momento de um processo cujas diretrizes assinalam os distintos ciclos históricos.
É por todas essas razões que cunpre reconhecer que a justiça, condicionante de todos os valores jurídicos, funda-se no valor da pessoa humana¨, valor fonte de todos os valores.
O agressor, esse triste idiota! pode engrandecer-se rebaixando os nordestinos, sem culpa e sem sofrimento - trata-se de pervesão moral. Torna-se possível porque ele é precedido de uma desqualificação da vítima e que é aceita em silêncio ou endossada pelo grupo dos arraiais da vida.
Por falar em arraias da vida!
Povo da AAPP!
Vamos reconhecer os nossos direitos!
Não se calem com as injustiças!
Vamos fazer a apologia da lei natural, que não precisa ser promulgada pelo legislador para ter validade!

Cassemiro
(doutrinador do direito justo)



Cassemiro(magistrado0


Cassemiro(magistrado)